quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Introdução

O Homem caminhava rua acima, lamentando o estado da sua vida. Tinha numa das suas mãos uma garrafa do habitual “auxiliar de afogamento de mágoas”, o uísque. A garrafa já estava praticamente vazia, mas ainda não tinha sido capaz de derrotar o desespero que reinava a mente daquele homem, por muito espantoso que seja. Estava uma noite chuvosa, sem estrelas e com a lua escondida por trás das nuvens, uma noite cerrada, um microcosmo da escuridão que constantemente cobria a alma do pobre ser humano lamurioso (ou o que sobra de “ser”) que caminhava pela rua tentando dar algum rumo à sua triste vida. No meio de toda a chuva distinguiam-se gotas mais brilhantes, talvez mais do que gotas, que caíam pesadamente nas pedras de calçada. Eram gotas que levavam consigo mais que água, levavam o peso de uma alma desfeita, numa tentativa desesperada de lavar o interior negro do “pobre homem”. Eram lágrimas, eram gritos de ajuda; mas ninguém iria ajudar aquele homem, ele sabia isso.
As 12 badaladas de um sino de uma igreja nas proximidades indicavam que chegava a meia-noite, o fim de mais uma noite, o começo de outra. O tempo passa lentamente para este homem. Cada minuto parece levar horas a passar, prolongando assim a caminhada deste ser pela avenida do sofrimento. Confrontado com um novo dia deixou-se cair no chão, tinha atingido o apogeu do desespero, queria ver aquilo tudo terminado, não suportava viver mais. Então, sem aviso, sentiu um calor no seu interior, uma impressão no abdómen como se o estivessem a virar de avesso; estava a ocorrer alguma transformação em si e por momentos julgou ter deixado de ser humano. Foi então que notou que já não o era, tinha-se tornado numa sombra da noite. Não era sólido, não era gasoso nem líquido, era como se tivesse deixado de existir por completo. Vagueava pela noite fria, por entre as gotas da chuva, pela tristeza da escuridão circundante. Sentia-se inseguro, frágil e estava a ser incomodado por uma sensação de que estava a ser perseguido. Olhou para trás discretamente e viu um homem que caminhava rua acima, deprimido, com lágrimas a escorrerem-lhe pela cara abaixo. A sombra continuou a seguir o homem ao longo da sua caminhada sem nexo. Ela sentia-se ligada aquele homem, partilhava a sua tristeza, a sua dor. Sentia como se fosse a sua tristeza, a sua dor...
O homem acordou sobressaltado. Estava deitado no chão, em cima da sua própria urina. Já era de manhã. Ainda meio a dormir levantou-se e ao olhar para a sua sombra pareceu vê-la acenar.

2 comentários:

LG disse...

powerfull

andrade disse...

espectáculo.

Continua